Publicada em 10/01/2010 às 12h52m -AP
CARACAS - Com a desvalorização do bolivar, a inflação ao fim do ano registrará uma forte alta, preveem analistas diante da decisão do presidente Hugo Chávez de desvalorizar a moeda na Venezuela pela primeira vez em quase cinco anos . O economista Pedro Palma, presidente da Academia Nacional de Ciências Econômicas, disse que o governo se viu forçado a aceitar que a grande disparidade entre o câmbio oficial e o paralelo já não era viável.
- A inflação vai disparar, mas há a necessidade de corrigir um desequilíbrio acumulado tremendo - disse Palma. - Creio que o governo teve que aceitar é que esta distorção cambial já não podia se sustentar, é
absurda - completou o economista. O governo estabeleceu sexta-feira à noite um tipo de câmbio, com duas cotações distintas, para incrementar as receitas do governo pela venda do petróleo e contra-atacar a inflação galopante. O bolívar, cotado oficialmente a cerca de 2,15 por dólar, a partir de agora terá dois tipos de câmbio, em função do uso: 2,60 por dólar para as transações consideradas como prioritárias pelo governo, como a importação de alimentos e saúde, e 4,30 por dólar para outras transações. O ministro de Finanças, Alí Rodríguez, descartou que a desvalorização vá afetar o comportamento dos preços dos principais bens e serviços de consumo de massa. O Índice Nacional de Preços fechou o ano de 2009 em 25,1%, o que converteu a Venezuela no país com a maior taxa de inflação na região pelo quarto ano consecutivo. O economista Orlando Ochoa disse que a desvalorização permitirá ''melhorar a situação financeira do governo'', com a obtenção de mais recursos pelas exportações de petróleo bruto e espera impulsionar a economia. Depois de quase cinco anos de crescimento contínuo, a economia venezuelana experimentou em 2009 um forte retrocesso, ao registrar uma queda de 2,9%. O petróleo, que significa 50% da arrecadação de impostos, reduziu-se à metade entre o fim de 2008 e o primeiro semestre de 2009, devido à queda dos preços internacionais do petróleo bruto e a diminuição da produção. A Venezuela mantém uma forte dependência do petróleo, que gera 94 de cada 100 dólares que ingressam no país por exportações.
- Desvalorizou-se o nível de vida dos venezuelanos, que amanheceram com o salário mínimo reduzido à metade - disse o prefeito de Caracas, da oposição, Antonio Ledezma. Antes da desvalorização, o salário mínimo era de aproximadamente 450 dólares por mês. Noel Alvarez, presidente da maior associação empresarial, a Fedecámaras, classificou o câmbio duplo como "uma medida positiva", mas acrescentou que "não constitui por si só uma virada acertada de política econômica", uma vez que consolida o controle de câmbio, medida que demonstrou sua ineficiência no controle da inflação. Chávez comentou, no sábado, que espera que a produtividade se eleve, à medida que as importações se tornam mais caras. - Por anos 'vendemos os dólares muito baratos, e isto estimulava as importações, que representam uma competição desleal por seu baixo custo. Com esta medida, obriga-se o setor produtivo a aumentar a produtividade e o setor comercial local a substituir importações - acrescentou ele, que citou como exemplo a importação de sapatos. - No ano passado, importamos 90 milhões de pares de sapatos, pelo amor de Deus!, porque sai muito barato. Não podemos fazer tudo isto, os sapatos, a roupa, quase tudo é importado.E concluiu:
- Só para importar alimentos, a Cadivi (oficina governamental que administra a venda de divisas) deu mais de US$ 6 bilhões. Boa parte destes alimentos podemos produzir na Venezuela. A desvalorização encareceu a compra de divisas para os venezuelanos em 20% ou 100%, dependendo de qual dos dois tipos de câmbio se utilize. O líder esquerdista ratificou sua intenção de intervir no lucrativo mercado negro paralelo, onde quase se chegou a triplicar a taxa de câmbio oficial.
- Esse ''dólar permuta", que é produto da especulação financeira, vamos combater com uma forte intervenção do Banco Central e do governo. Este é o quarto ajuste de câmbio que o governo de Chávez realiza desde que impôs o controle de câmbios, em 2003, para conter a fuga em massa de capitais. O câmbio de 2,60 por dólar será destinado às transações relacionadas com os bens dos setores alimentício, de saúde, de maquinário e equipes para o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico, assim como livros e material escolar. Também se incluiu nesta cotização as importações do setor público, remessas familiares, remessas para estudantes no exterior, embaixadas e consulados na Venezuela, e pensionistas. Outros setores, como o automotivo, comércio, telecomunicações, metalúrgico, informático e borracha e plástico, eletrodoméstico, cigarro e bebidas foram cotizados a 4,30 bolívares por dólar.
- Quase tudo vai custar o dobro - insistiu Ledezma.
Dezenas de venezuelanos podiam se vistos no sábado nas portas das lojas de eletrodomésticos tentando comprar de geladeiras a equipamentos de som, segundo eles, antes que os preços dobrem.
- Isto é uma loucura. Quando soube do que houve com o dólar, não pensei duas vezes: raspei minha conta bancária e vim comprar minha máquina de lavar - disse Iraima Rodríguez, uma secretária de 31 anos. - Sempre que desvalorizam os preços vão às nuvens.
http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/01/10/desvalorizacao-acelerara-inflacao-na-venezuela-dizem-analistas-915497329.asp
http://oglobo.globo.com/economia/fotogaleria/2010/10729/
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
PREÇOS NAS NUVENS - Desvalorização acelerará inflação na Venezuela, dizem analistas
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